quarta-feira, 31 de agosto de 2011

GUÍMARO - 18 ANOS DEPOIS

Árbitro telefona aos presidentes

A corrupção na arbitragem é um tema que tem barbas e que até agora Sá fez um preso. José Guímaro foi apanhado em escutas telefónicas. O árbitro pedia 2000 contos (10000 euros) ao presidente do Leça, ‘Manecas’, e ao pai, Manuel Rodrigues, também dirigente do clube. Dezoito anos passados, Guímaro revela ao que o caso vai muito para lá do futebol (ver caixa) e o inspector da Polícia Judiciária (PJ) que coordenou a investigação confessa a surpresa pelo que ouviu.



O chamado caso dos ‘Quinhentinhos’ remonta a 7 de Junho de 1993, dia em que o Leça venceu o Académico de Viseu, 3-0 celebrando a conquista do título da 2ª Divisão B. Nas escutas sempre que se falava de dinheiro, surgia a palavra ‘quinhentinhos. Depois daquele jogo, a PJ, em buscas na casa do árbitro da Tocha, encontra cópia de um cheque de 500 contos (2500 euros).

A investigação criminal surge na sequência de um trabalho jornalístico, ‘Corruptos e Bem Pagos, publicado no extinto jornal Gazeta dos Desportos’ e assinado por Marinho Neves, que foi agredido à porta de casa e tinha a família ameaçada. A PJ meteu-se em campo e o jornalista deu “as pistas e os contactos para apanharem os prevaricadores”.

Mas a fama dos ‘quinhentinhos vem do início da década de 90. Era um assunto incontornável em conversas de bastidores. Falava-se em tabelas de preços, em função da importância dos jogos, mas só se falava. Consequências? Zero. Nenhum efeito até a PJ entrara em campo. Resultado mais visível: três meses de prisão preventiva para José Guímaro.

Dezoito anos passados, Calado de Oliveira, que trabalhou em vários processos conhecidos e coordenou a investigação do ‘Caso Guímaro’, conta que nem queria acreditar no que ouvira: “Já tinha visto muita coisa, mas agora, um árbitro a telefonar a presidentes de clubes a pedir dinheiro... deixou-me surpreendido.”


Perante os factos e as evidências, o caso foi a julgamento, que teve início a 9 de Outubro de 1996. Manecas afirmou perante o Procurador-geral da República da altura, Almeida Pereira: “Jamais fui abordado pelo Sr. Guímaro para qualquer tipo de acordo.” No entanto, ficou provado, em tribunal, que houve ilícito.

Para além de José Guímaro, condenado, por corrupção passiva, a 15 meses de prisão que foi transformada em pena suspensa por 5 anos, foram ainda sentenciados a penas de prisão, pelo Tribunal de Matosinhos, os dirigentes do Leça Manecas, 12 meses, Manuel Gonçalves Rodrigues (pai de Manecas) – passou os cheques a Guímaro –, e ainda o intermediário, António Ramos, ex presidente do Rio Ave, a 8 meses que acabaram por cumprir, também, penas suspensas.

José Guímaro, passados 18 anos, faz uma declaração bombástica: “ Pode ter parecido, mas os ‘quinhentinhos’ – pagamentos de 500 contos (2500 euros) que circulavam através de pessoas ligadas ao futebol – nada tinham a ver com futebol. Eram negócios – escusou-se dizer quais – envolvendo gente do futebol, mas que nada tinham a ver com o futebol”! E acrescenta: “ No meio de tudo isto tinha de haver uma vítima e essa fui eu. Mas tudo girava em torno de uma guerra, tal como hoje, entre Porto e Benfica que vai muito para além do futebol”.

NEGÓCIO
SEXO, JOGO E… FUTEBOL

Mas quais são os negócios de que José Guímaro não quer falar? Pusemo-nos em campo e apuramos que a circulação dos ‘quinhentinhos’ era feita através de pessoas com estatuto elevado na estrutura do futebol que, através de intermediários, inclusive árbitros, pediam dinheiro a dirigentes de clubes tidos como pequenos que a rogo de interesses futebolísticos ‘desviavam’ as verbas obtidas para negócios que envolviam, essencialmente, sexo e mulheres que se faziam pagar principescamente, jogos de azar mas também favores no futebol.

PROTAGONISTAS

Beneficiei do esquema

“ Claro que beneficiei do esquema, mas não matei ninguém, não roubei nem fiz nada de mal. Andei e ando de cabeça levantada, Fui afastado da arbitragem quando já estava na 2ª.Categoria e hoje, como antes, continuo a ser motorista” conta José Guímaro.

Irmão de Reinaldo Teles

Joaquim Pinheiro (não quis falar), irmão do vice – presidente do FC Porto, Reinaldo Teles, também foi a tribunal, mas sempre que confrontado com as gravações e datas de conversas com Guímaro disse “não me recordo”. Acabou por não ser condenado.



Destruíram-me a vida

“Fiquei com a vida destruída e o Leça saiu altamente lesado. Passados dez anos ainda não consegui ter uma vida direita. Todos olham para mim com desconfiança. Fui vítima de injustiça. Ao contrário de Guímaro não há nenhuma referência a escutas minhas”, conta Manecas.

Presidente do Rio Ave era intermediário

António Ramos, tido como o intermediário dos ‘quinhentinhos’ no caso Guímaro, era na altura presidente do Rio Ave. O empresário da construção civil é pai do actual treinador da Naval 1º de Maio, Daniel Ramos, e não quis prestar declarações.

Leça Baixa de Divisão em 97

Em 1997, a 26 de Junho, com o Leça na 1ª Divisão o Conselho de Disciplina da Liga considerou que o caso Guímaro não passou de tentativa de corrupção, condenando o Leça à perda apenas 3 pontos. Logo a seguir corrigiu para descida à Honra.

Carlos Severino

Trabalho alargado cuja versão mais sintetizada foi publicada no CM de 27/08/11

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

SÁ PINTO vs ARTUR JORGE

Entre a Cabala e a Opção

Portugal precisava de vencer. Em Março de 1997, preparava-se o importante encontro com a Irlanda do Norte, que se mostrava quase fundamental para o alcance do apuramento para o Mundial França 98.



Para espanto geral, da convocatória do seleccionador nacional, Artur Jorge, não fazia parte Sá Pinto, então avançado do Sporting, treinado por Octávio Machado, que estava em grande forma.

A situação despertou muita curiosidade, o que levou a que a rádio TSF e o Jornal Record apresentassem uma versão sustentada por fonte próxima de Artur Jorge, que aqui recordamos: “Sá Pinto teve comportamentos menos ajustados nos estágios em Braga e na Grécia, aquando de 2 jogos de preparação.”

Artur Jorge: “Foi opção técnica”

À questão sobre as causas da não convocação de Sá Pinto, Artur Jorge disse: “ Não houve mais nada que uma decisão minha, uma opção meramente técnica”.

Sá Pinto dirigia-se para Alvalade quando ouviu e leu a notícia. Rumou para o Estádio Nacional, após ter recebido um telefonema do assessor de imprensa da FPF, Joseph Wilson, convidando-o a ir despedir-se dos colegas, e o caldo entornou-se.

A Única Testemunha

Testemunha única de tudo o que aconteceu foi o actual médico da selecção A, Nuno Campos, que estava no local, na qualidade de clínico dos sub – 21. Dirigia-se a Artur Jorge para lhe transmitir que Dani (Jogador do AJax) não estava em condições físicas de substituir o também lesionado, Rui Barros. Diz Nuno Campos, que assistiu à chegada de Sá Pinto: “deu dois murros na cabeça de Artur Jorge, atirando-o ao chão e perguntou-lhe ‘ó filho da p... por que é me estás a estragar a vida?!”

“Nada Disse ao Jogador”

Nas diversas versões, para justificar a ocorrência, incluía-se uma que atribuía a Octávio Machado – estava de relações cortadas com Artur Jorge –, o incentivo ao jogador para fazer o que fez. O ex treinador do Sporting garante não ser verdade: “Não estive com o Sá Pinto antes de ele ir para o Estádio Nacional e jamais o incentivaria a proceder daquela forma”.

A Jogada de ‘Mestre, segundo Octávio’

Para Octávio Machado, o desenlace do caso foi resultado de uma cabala: “Nada acontece por acaso. A não convocatória de Sá Pinto foi uma jogada de ‘mestre’. O Sporting estava a morder os calcanhares ao Porto, no campeonato. Numa estratégia montada a Norte, houve o aproveitamento da situação para arrumar com o Sporting e para me obrigar também a sair, porque estávamos a incomodar.”

Sá Pinto afirma que não foi a não convocatória que o revoltou. “Reagi mal à acusação de mau comportamento como razão para o meu afastamento, por ser falsa.” E acrescentou: “Quanto à eventual entrevista que lhe podia baixar o castigo (ver protagonistas), Sá Pinto admite que pode ter existido essa situação, mas não se recorda de ter havido um contacto efectivo.”


Pinto Monteiro, actual PGR, Sentenciou

O caso que culminou com a condenação desportiva de Sá Pinto por agressão a Artur Jorge, teve contornos que acabaram por envolver diversas personalidades, entre elas o actual Procurador-geral da República. Pinto Monteiro desempenhava então o cargo de Presidente do Conselho de Justiça da FPF e foi quem sentenciou a penalização de um ano ao jogador. Pinto Monteiro, enquanto presidente do CJ da FPF, seguiu a decisão do ‘amigo’ Dinis Nunes (já falecido) que era o presidente do Conselho de Disciplina, como fazia habitualmente, apurou o Correio Sport. Já em relação ao processo cível, o pedido de desculpas de Sá Pinto a Artur Jorge levou este último a desistir da queixa que podia dar prisão ao ex jogador do Sporting.


PROTAGONISTAS


O Advogado do Norte

O advogado Lourenço Pinto, actual presidente da AFPorto, conduziu o caso sem evitar a pena de um ano de suspensão. “Se tivesse intervido mais cedo, o Sá Pinto podia não ter sido castigado”.

Sá Pinto: “Respeitei opções do seleccionador”

“Tinha a minha mulher grávida, a minha mãe mal de saúde e os problemas levantados pela não convocação, por duas vezes em curto espaço de tempo. Foi uma pressão enorme, mas sempre respeitei as opções do seleccionador.”

Entrevista baixava castigo para 6 meses

Dinis Nunes, presidente do CD, pediu a fonte do Correio Sport, para fazer chegar o recado: se o jogador desse entrevista a pedir desculpa a Artur Jorge, o castigo seria de apenas seis meses. Sá Pinto não deu a entrevista. Apanhou um ano.

Rui Águas ateou o que parecia apagado

Nuno Campos relembra que: “já tudo estava sanado, com Oceano a levar Sá Pinto para a sua viatura, quando surgiu Rui Águas que lhe disse das boas. O resultado foi o que as célebres e elucidativas fotos, que correram mundo, mostraram.”

Arruinaram carreira a Sá Pinto

“O castigo prejudicou o Sporting e arruinou carreira a Sá Pinto. João Pinto agrediu árbitro num Mundial, com tanta gente a ver. Apanhou 3 meses! Scolari agrediu jogador sérvio perante o Mundo. Quase nada aconteceu, porquê?”, questiona Octávio Machado.

Carlos Severino

Versão alargada da síntese que foi publicada no Correio da Manhã (Correio Sport), a 13 de Agosto.

domingo, 24 de julho de 2011

O CUSTO ZERO SAIU POR MILHÕES E DEU TRIBUNAL - JOÃO PINTO NO SPORTING

O contrato foi assinado em Julho de 2000. Os dirigentes da SAD do Sporting, presidida, tal como hoje, por Luís Duque, publicamente deram conta da contratação do capitão do Benfica, João Pinto, a custo zero!

Só em 22/12/04 o assunto voltou à baila. Uma carta anónima entrada no DIAP, com documentos (facturas a reclamar pagamentos em nome da empresa inglesa Goodstone Consulting), levantou suspeitas de que o custo zero afinal podia ser de mais de 10 milhões de euros e com a probabilidade de fuga ao fisco e branqueamento de capitais.

Chamado a depor em 5/05/05, João Pinto disse que tinha assinado apenas um acordo de 5 milhões de euros só para vencimentos (ver pontos nos is).

Versão diferente tiveram Luís Duque, Carlos Freitas, ao tempo director desportivo tal como agora, Soares Franco, administrador, e Rui Meireles, director financeiro da SAD sportinguista. Todos confirmaram o prémio de assinatura de cerca de 5 milhões de euros, a envolvência do empresário José Veiga e da empresa Goodstone (ver pontos nos is).

TELES ASSINOU MAS NÃO SABIA DE NADA

Foi, ainda, inquirido Miguel Ribeiro Teles, então administrador da SAD. Apesar de ter assinado o contrato revelou desconhecer os contornos do mesmo!

Na posse de depoimentos contraditórios e documentos probatórios da envolvência de José Veiga, o DIAP, em 22/11/06, deteve-o e ouviu-o (ver pontos nos is).

Perante factos apurados, o DIAP considerou José Veiga suspeito dos crimes de abuso de confiança e burla qualificada. Veiga passou à condição de arguido, ficando proibido de se deslocar ao estrangeiro e condenado a pagar uma caução de 500.000 euros cuja obrigação foi revogada, após recurso. Isto iria provocar uma tentativa de volte – face no caso.

A 23/11/06 a Sporting SAD requer ser assistente no processo e em 28/11/06 João Pinto veio pedir para ser, de novo, ouvido pelo DIAP.

A Sporting, SAD, a 5/12/06, veio mostrar uma minuta, para provar que havia um prémio de assinatura, referindo que não estava assinada porque João Pinto remeteu os seus direitos desportivos para a Goodstone a quem a Sporting, SAD ficou de pagar cerca de 4 milhões de euros.

JOÃO PINTO DÁ O DITO POR NÃO DITO

João Pinto, ao contrário do que disse em 5/05/05 afirmou, em depoimento feito a 3/01/07, que afinal exigira ao Sporting, através de José Veiga, 4 milhões de euros como prémio de assinatura, tendo recebido, até ali, 3. 250 Milhões de euros. Disse, ainda, que Veiga nada recebeu. Entrou no DIAP como testemunha e saiu como arguido.

BUSCA DA PJ AO ESCRITÓRIO DE TELES

As peripécias que se seguiram foram muitas. Envolveram até uma busca ao escritório de Miguel Ribeiro Teles, na altura dirigente da SAD. A PJ foi lá descobrir um documento assinado por João Pinto e pelo Sporting onde o jogador se responsabilizava por eventuais pedidos de pagamento ao Sporting por parte da Goodstone. Estava num envelope lacrado, e Ribeiro Teles disse que desconhecia o seu conteúdo.

BASE DA ACUSAÇÃO

Ministério Público: ”(…)O arguido João Pinto agiu de comum acordo com o arguido José Veiga e, através deste com os arguidos Luís Duque e Rui Meireles, tendo cada um deles praticado os actos necessários a que o arguido João Pinto recebesse através da Goodstone, sociedade estranha ao negócio, as quantias relativas ao prémio de assinatura, ocultando o seu recebimento à Administração Tributária, não pagando o imposto devido. Os arguidos João Pinto e José Veiga, de comum acordo, praticaram os actos necessários a que verbas transferidas pelo Sporting para a Goodstone viessem a ser depositadas na conta de João Pinto. (…) Os arguidos João Pinto, José Veiga, Luís Duque e Rui Meireles, praticaram os actos, conhecendo-os, querendo praticá-los e sabendo ser proibida por lei a sua conduta. (…)”

OS 4 arguidos vão ser julgados a 23/1/2012, por:
- João Pinto e José Veiga estão acusados de fraude fiscal agravada e branqueamento de capitais.
- Luís Duque e Rui Meireles são acusados de fraude fiscal qualificada.

PONTOS NOS IS

1 - João Pinto

5/5/05 – “ Acordei com o Sporting auferir, como salário, a quantia de 1 milhão de contos (5 milhões de euros) por quatro épocas (2000 a 2004. Não recebi nenhum valor aquando da assinatura do contrato. Nunca ouvi falar da sociedade Goodstone.”

2 – João Pinto

3/01/07 – “ Exigi ao Sporting, através de José Veiga, a quantia de 4 milhões euros a título de prémio de assinatura do contrato. José Veiga nada recebeu pela intermediação.”

3 - Luís Duque

11/07/06 - “As negociações foram intermediadas por José Veiga. Carlos Freitas representou o Sporting. O contrato previa verbas para prestação de trabalho e para pagar a uma empresa estrangeira, detentora dos direitos desportivos do jogador.”

4 - José Veiga

20/11/06 - “Não intervim profissionalmente na contratação de João Pinto. As negociações com o Sporting foram sempre acompanhadas pelo jogador. Não recebi qualquer contrapartida relativa à sua contratação. Não tenho qualquer relação com a Goodstone.”

5 - Rui Meireles

21/04/05 - “ Além do contrato de trabalho desportivo deveria ser pago a João Pinto 4.200 milhões euros através da Goodstone. As condições do contrato foram discutidas com Veiga. Noutras transferências, já lhe havíamos pago comissões através da Goodstone.

Carlos Severino – A Versão sintetizada foi publicada no Correio da Manhã em 23/7/2011.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

FUTRE - Pinto da Costa queria Jordão, Pedroto o ‘miúdo’

Jordão esteve na calha no ataque do FCPorto ao Sporting no defeso de 84. Pinto da Costa queria o leão que jogou, anos antes, no Benfica mas acabou por contratar Futre.

PINTO DA COSTA INCENTIVA FUTRE

“Aí [Sporting] não, mas aqui [FCPorto] serás tu e mais dez” garante Futre ter ouvido da boca de Pinto da Costa quando, ao telefone da Casa do FCPorto em Lisboa, falou a primeira vez com o presidente dos dragões. Haveria de ouvir, outra vez, palavras idênticas quando chegou à Invícta.

Futre foi para o FCPorto após incursão do Sporting nas Antas. João Rocha, presidente dos leões, contratou os médios Sousa e Jaime Pacheco. Pinto da Costa respondeu – lhe: chegou a acordo com Futre socorrendo-se da famigerada lei da falta de condições psicológicas.

PROPOSTA EM PAPEL PARDO

Antes de ‘fugir’ do Sporting, Futre apresentou proposta de aumento de vencimento a Armando Biscoito, ao tempo secretário – geral do clube. O ex jogador diz que não sabe se a proposta chegou ao presidente João Rocha. Biscoito esclarece: “Apareceu-me com números que não me recordo, escritos em folha de papel pardo! Naquele dia não consegui falar com o presidente [João Rocha]. Falei no dia a seguir. Quando procurei Futre, para entabular negociações, ele tinha ido ao Centro de Medicina em Lisboa, e nunca mais voltou a Alvalade! Foi ‘interceptado’ por Perez Andion, representante do FCPorto em Lisboa, como o próprio me contou mais tarde.”

Carta da FPF Trama Sporting

Armando Biscoito garante que tudo fez para resgatar Futre. “Dei indicações na secretaria para não se aceitar nenhuma carta registada vinda do Futre, para evitar a rescisão por causas psicológicas. Passados 25, 26 dias recebemos uma carta registada da FPF e, para nosso espanto, lá dentro estava o documento, assinado pelo jogador, que tínhamos evitado receber. Tudo acabou. A FPF esteve, lamentavelmente, em conluio com Futre e com quem o contratou!”

Relatório Para Empréstimo

Joseph Venglos está ligado à ‘fuga’do esquerdino. O técnico leonino preocupava-se com o desenvolvimento físico de Futre. O jovem tinha problemas de crescimento (ver caixa) e disso deu conta Venglos num relatório onde recomendava, apurou o Correio Sport, que o avançado fosse rodar noutro clube da 1ª Divisão. O treinador acabou por deixar Alvalade. O sucessor ficou com a ‘batata quente’. John Toshack decidiu do empréstimo, à Académica, que não se concretizaria.



A FUGA


Em segredo, o jogador viajou para o Porto na companhia do ‘amigo’ do FCPorto, Domingos Pereira, e ainda do dirigente, Alexandre Magalhães, portador do contrato, cumprindo assim o desejo do treinador. “Pinto da Costa queria o meu colega [Jordão], mas foi o José Maria Pedroto que optou por mim, pelo miúdo”, disse Futre ao Correio Sport.


No Esconderijo da Invicta


Como Futre tinha contrato com os leões, os dirigentes do seu novo clube ‘esconderam-no’ até tudo se resolver. Foi para casa de Álvaro Braga Jr., do departamento de futebol portista, onde ficou três meses. “ Os pais, preocupados, ficaram felizes por saber que ele ia morar na minha residência.”

GANHAR 30 VEZES MAIS


Sabedor do que se passava, Pinto da Costa propôs ao jogador um contrato de 27.000 contos (135.000 euros) por época, mais carro e casa, cerca de 2200contos mês (11.000 euros). Futre ganhava 70 contos mês (350euros) no Sporting.

SPORTING TENTOU TUDO PARA RECUPERAR FUTRE

Mas até ter recebido a carta da FPF o Sporting não desistiu como refere Armando Biscoito:”Fui ao Montijo com o advogado do Sporting, João Gaspar. Negociei com o irmão e os pais de Futre, avançando com uma verba a rondar os 18.000 contos (90.000euros) por época, 1500 contos mensais (7.500 euros), mas nada feito.”

PROTAGONISTAS


1 – O único arrependimento

Futre confessa ao Correio Sport que só se arrepende de: “não ter dito nada ao ‘Manel’ [Manuel Fernandes]. Fiquei na dúvida. Ele era o capitão e podia deixá-lo numa posição complicada. Optei por nada dizer. Só os meus pais e o meu irmão é que sabiam.”

2 – A cinta do tratamento para o crescimento

O jovem Futre tinha um problema nas costas que lhe estava a atrapalhar o crescimento. “Entre os 15 e os 17 anos usei uma cinta nas costas para me ajudar a corrigir um problema de crescimento, confessa o ex. avançado.

3 – Só foi a casa no Natal e de costas guardadas

Futre chegou ao Porto em Junho de 84 e só regressou a casa dos pais no Natal daquele ano. “ Vim ao Montijo acompanhado pelo “vovô” Domingos Pereira e por um guarda – costas, não fosse o diabo tecê-las”, recorda o esquerdino.

4 – As diferenças entre Oliveira (Sporting) e Frasco (FCPorto)

Octávio Machado (adjunto do FCPorto) salienta que os hábitos de vida de Futre foram alterados para realçar o seu potencial. “No Sporting ele partilhava o quarto com o Oliveira. No FCPorto passou a ter como companheiro o Frasco, o que não era propriamente a mesma coisa.”


5 – A transferência para o Atlético de Madrid adiada por um ano


Futre consultou José Eduardo, presidente do Sindicato de Jogadores, Paulo Relógio, advogado do Sindicato de Jogadores após a segunda época no FCPorto. Havia uma proposta milionária do Atlético de Madrid. “Aconselhámos o jogador a não sair”, disse o, também, ex jogador do Sporting.

Carlos Severino - Publicado em Ficheiros Secretos, Correio da Manhã, 16/7/2011

sábado, 9 de julho de 2011

João Pinto: Valentim Loureiro trama Sporting

Um empregado de Luís Filipe Vieira foi uma das peças-chave no Verão Quente de 93: o Sporting foi à Luz contratar Paulo Sousa e Pacheco, gastando 85 mil euros/mês. O Benfica preparava-se para perder ainda João Pinto, desviado para Torremolinos, mas Jorge de Brito foi resgatá-lo, dando-lhe mais 200 mil euros do que o rival. O ‘Correio Sport’ conta-lhe todos os pormenores.

O Benfica passou a perna ao Sporting na época de 1992/93. O boavisteiro João Pinto e Paulo Futre (Atlético de Madrid) estiveram com um pé nos leões mas, à última hora, foram desviados para a Luz.
No Verão Quente de 93, surgiu a oportunidade para Sousa Cintra, presidente do Sporting, se vingar. O alerta para salários em atraso no Benfica soou em Alvalade, e o ataque sportinguista não se fez esperar.
Valdemar Sousa, sócio do Sporting, e um adepto leonino foram peças-chave na operação. Sousa trabalhava numa empresa de Luís Filipe Vieira, hoje presidente do Benfica, e o adepto sportinguista era funcionário de uma agência bancária na Praça dos Restauradores (Lisboa), como recorda, ao Correio Sport, Abílio Fernandes, que foi vice-presidente e director do futebol profissional dos leões: "Pelas ‘dicas’ que nos deram, ficámos a saber que a tesouraria do Benfica estava ‘nas lonas’. Havia dois meses de ordenados em atraso."

Pacheco foi o primeiro alvo leonino. Abílio Fernandes fez o contacto, e a proposta de contrato (ver caixa) foi logo aceite. Pacheco, hoje empresário da restauração, assume que a mudança para Alvalade se prendeu, tão-só, com razões "pessoais e profissionais", as quais não quis aprofundar.
Seguiu-se Paulo Sousa. O contrato do centro-campista foi assinado por um montante superior (ver caixa). O médio teve de ‘esconder-se’ uns dias no Algarve, em casa de um amigo, e só reapareceu em público na apresentação em Alvalade. Valdemar Sousa (ver noutra peça) acompanhou todos os passos do até então benfiquista.

NO AVIÃO DE CINTRA

Com João Pinto, o tratamento foi de choque. O Sporting pagou logo 30 mil contos (150 mil euros) à cabeça, por um contrato de três épocas, no valor de 350 mil contos (1 750 000 euros).
A preocupação de esconder João Pinto era grande. Abílio Fernandes revela os pormenores: "Logo naquela noite, mudámos os pertences do jogador de um apartamento que era do Benfica para uma casa do Sporting, na Quinta do Lambert, em Lisboa. Depois, João Pinto viajou, secretamente, no avião de Sousa Cintra, para Torremolinos [Espanha]."

SOGRA DÁ ‘DICA’ A MAJOR

Com tudo controlado pelo Sporting, pensavam os seus dirigentes, entra em acção Valentim Loureiro (não respondeu às nossas perguntas). Jorge de Brito, presidente do Benfica, contactou com o homólogo e terá ameaçado o major de não pagar a tranche em falta pela transferência de João Pinto do Boavista para a Luz.
Sousa Cintra não tem dúvidas em afirmar que foi Valentim Loureiro (curiosamente, sócio do Sporting) quem informou sobre o local onde estava escondido João Pinto: "Ele soube o contacto do jogador através da sogra do João [Pinto] e ‘virou-lhe a cabeça’. Depois, deu a morada a Jorge de Brito, que o foi lá buscar."

BRITO E A MALA DO DINHEIRO

O presidente encarnado viajou, de carro, para Torremolinos, com uma pasta cheia de dinheiro e um contrato para assinar: 390 mil contos (1 950 000 euros) por três épocas, ou seja, mais 40 mil contos (200 mil euros) do que o valor oferecido pelo Sporting. Brito acertou tudo com o avançado e trouxe-o, de novo, para a Luz, promovendo uma conferência de imprensa. Até parecia que estava a apresentar um reforço.

ORDENADOS DOS REFORÇOS
O ‘Correio Sport’ pode hoje avançar os ordenados da dupla de benfiquistas contratados no Verão Quente de 93 pela Direcção de Sousa Cintra. Uma diferença de dez mil euros separava os vencimentos: Pacheco recebia 7500 contos (37 500 euros) mensais. "O jogador mostrou-se bastante receptivo e num instante chegámos a acordo", conta Abílio Fernandes, lembrando que as negociações com Paulo Sousa decorreram de forma sigilosa. O contrato, sabe--se agora, foi assinado por 9500 contos (47 500 euros) por mês.

PROTAGONISTAS

João Pinto só devolve 150 mil euros em 2005
João Vieira Pinto recebeu 30 mil contos (150 mil euros) por conta do contrato com o Sporting, no Verão de 93. Na altura, não devolveu a verba aos leões. Apenas o fez em 2005, aquando do acerto de verbas pelo contrato assinado no Verão de 2000 com o clube leonino.

Leões também tentam Rui Costa e Isaías
Abílio Fernandes foi o homem que atacou o ‘ninho da águia’. Garantiu as contratações de Pacheco e Paulo Sousa. Mas quis ir mais longe, como revela ao Correio Sport: "Ainda tentámos Rui Costa e Isaías mas não foi possível."

Sócio do Sporting ‘dorme’ com Paulo Sousa
"Sousa Cintra incumbiu-me de andar sempre com o Paulo Sousa durante o tempo que duraram as conversações. E, na véspera da assinatura do contrato, Cintra pediu-me para ‘dormir’ com o Paulo Sousa, com receio de que ele mudasse de ideias", conta Valdemar de Sousa.

Pacheco contra troca de Robson por Queiroz
"A minha ida para o Sporting foi o princípio do fim da minha carreira. A troca de Bobby Robson por Carlos Queiroz foi nefasta para o grupo. O professor tinha um péssimo relacionamento com os jogadores de quem não gostava", assume António Pacheco.

Cintra e Brito: amigos, amigos, clubes à parte
"Os ataques do Benfica ao Sporting, e vice--versa, não ‘mexeram’ com a amizade que tinha por Jorge de Brito. Fui amigo dele até ao seu falecimento. Afinal, ele defendeu o seu clube e eu apenas tentei defender o meu", disse Sousa Cintra.

Carlos Severino

FICHEIROS SECRETOS DO FUTEBOL PORTUGUÊS/ CORREIO DA MANHÃ - 9 de Julho 2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

FICHEIROS SECRETOS

Pois é, tenho andado ausente. Mas há uma razão: estou a contar "estórias" no Correio da Manhã, num projecto chamado Ficheiros Secretos do Futebol Português!

É já este Sábado que sai a primeira história. Espero que gostem. Pelo menos durante 3 meses vai haver Ficheiros Secretos do Futebol Português aos sábados.

É mais um experiência. Espero corresponder ao desafio feito por Octávio Ribeiro, um "velho" companheiro que conseguiu tornar o CM imbatível. 

E pronto, está justificada a minha ausência. Leiam os Ficheiros e fiquem a saber muitas novidades deste mundo da bola,  onde acontecem tantos episódios que nem lhes passa pela cabeça.


Carlos Severino

quarta-feira, 15 de junho de 2011

NUNO GOMES SAI DO BENFICA

O FIM DOS DIAS DE GLÓRIA


É legítimo que Nuno Gomes, agora com 35 anos, queira continuar a jogar, como foi legítimo o desejo de Eusébio em continuar a calçar as chuteiras para além do Benfica. Foi legítimo Manuel Fernandes, depois de se sagrar o melhor marcador do campeonato com 36 anos, querer continuar a marcar golos só que teve de o fazer fora de Alvalade. E aconteceu com Oceano e tantos outros.

Como na vida há um tempo para tudo e no futebol o passar dos anos retira muito da condição física  ideal para a prática da modalidade ao mais alto nível. Não pode haver dúvidas de que é preciso, por vezes, perceber que se tem de colocar um ponto final antes que outros o façam por nós.

Quando achamos que há ingratidão e má vontade daqueles que até nos aplaudiram e elogiaram um dia, é possível que tenhamos razão, mas é preciso também perceber as razões deles. No entanto, nem sempre é possível conciliar vontades e no caso de Nuno Gomes não, foi de todo, conseguido um acordo prestigiante para ambas as partes.

No fundo as duas partes têm as suas razões, mas não deixa de ser lamentável que figuras como as citadas neste escrito, não terminem as suas carreiras nos clubes que os engrandeceram e que eles prestigiaram. Atletas e dirigentes ainda não encontraram a formula que usa e usou o Milan. Maldini, Baresi e outros foram preservados no clube milanês até ao fim, aos 40 e tal, e com bons resultados. Ninguém deu um pontapé em ninguém e a imagem para o exterior foi de acordo com a grandeza de um grande clube. A isto chama-se mística.

Já agora, boa sorte Nuno.

Carlos Severino