sábado, 9 de julho de 2011

João Pinto: Valentim Loureiro trama Sporting

Um empregado de Luís Filipe Vieira foi uma das peças-chave no Verão Quente de 93: o Sporting foi à Luz contratar Paulo Sousa e Pacheco, gastando 85 mil euros/mês. O Benfica preparava-se para perder ainda João Pinto, desviado para Torremolinos, mas Jorge de Brito foi resgatá-lo, dando-lhe mais 200 mil euros do que o rival. O ‘Correio Sport’ conta-lhe todos os pormenores.

O Benfica passou a perna ao Sporting na época de 1992/93. O boavisteiro João Pinto e Paulo Futre (Atlético de Madrid) estiveram com um pé nos leões mas, à última hora, foram desviados para a Luz.
No Verão Quente de 93, surgiu a oportunidade para Sousa Cintra, presidente do Sporting, se vingar. O alerta para salários em atraso no Benfica soou em Alvalade, e o ataque sportinguista não se fez esperar.
Valdemar Sousa, sócio do Sporting, e um adepto leonino foram peças-chave na operação. Sousa trabalhava numa empresa de Luís Filipe Vieira, hoje presidente do Benfica, e o adepto sportinguista era funcionário de uma agência bancária na Praça dos Restauradores (Lisboa), como recorda, ao Correio Sport, Abílio Fernandes, que foi vice-presidente e director do futebol profissional dos leões: "Pelas ‘dicas’ que nos deram, ficámos a saber que a tesouraria do Benfica estava ‘nas lonas’. Havia dois meses de ordenados em atraso."

Pacheco foi o primeiro alvo leonino. Abílio Fernandes fez o contacto, e a proposta de contrato (ver caixa) foi logo aceite. Pacheco, hoje empresário da restauração, assume que a mudança para Alvalade se prendeu, tão-só, com razões "pessoais e profissionais", as quais não quis aprofundar.
Seguiu-se Paulo Sousa. O contrato do centro-campista foi assinado por um montante superior (ver caixa). O médio teve de ‘esconder-se’ uns dias no Algarve, em casa de um amigo, e só reapareceu em público na apresentação em Alvalade. Valdemar Sousa (ver noutra peça) acompanhou todos os passos do até então benfiquista.

NO AVIÃO DE CINTRA

Com João Pinto, o tratamento foi de choque. O Sporting pagou logo 30 mil contos (150 mil euros) à cabeça, por um contrato de três épocas, no valor de 350 mil contos (1 750 000 euros).
A preocupação de esconder João Pinto era grande. Abílio Fernandes revela os pormenores: "Logo naquela noite, mudámos os pertences do jogador de um apartamento que era do Benfica para uma casa do Sporting, na Quinta do Lambert, em Lisboa. Depois, João Pinto viajou, secretamente, no avião de Sousa Cintra, para Torremolinos [Espanha]."

SOGRA DÁ ‘DICA’ A MAJOR

Com tudo controlado pelo Sporting, pensavam os seus dirigentes, entra em acção Valentim Loureiro (não respondeu às nossas perguntas). Jorge de Brito, presidente do Benfica, contactou com o homólogo e terá ameaçado o major de não pagar a tranche em falta pela transferência de João Pinto do Boavista para a Luz.
Sousa Cintra não tem dúvidas em afirmar que foi Valentim Loureiro (curiosamente, sócio do Sporting) quem informou sobre o local onde estava escondido João Pinto: "Ele soube o contacto do jogador através da sogra do João [Pinto] e ‘virou-lhe a cabeça’. Depois, deu a morada a Jorge de Brito, que o foi lá buscar."

BRITO E A MALA DO DINHEIRO

O presidente encarnado viajou, de carro, para Torremolinos, com uma pasta cheia de dinheiro e um contrato para assinar: 390 mil contos (1 950 000 euros) por três épocas, ou seja, mais 40 mil contos (200 mil euros) do que o valor oferecido pelo Sporting. Brito acertou tudo com o avançado e trouxe-o, de novo, para a Luz, promovendo uma conferência de imprensa. Até parecia que estava a apresentar um reforço.

ORDENADOS DOS REFORÇOS
O ‘Correio Sport’ pode hoje avançar os ordenados da dupla de benfiquistas contratados no Verão Quente de 93 pela Direcção de Sousa Cintra. Uma diferença de dez mil euros separava os vencimentos: Pacheco recebia 7500 contos (37 500 euros) mensais. "O jogador mostrou-se bastante receptivo e num instante chegámos a acordo", conta Abílio Fernandes, lembrando que as negociações com Paulo Sousa decorreram de forma sigilosa. O contrato, sabe--se agora, foi assinado por 9500 contos (47 500 euros) por mês.

PROTAGONISTAS

João Pinto só devolve 150 mil euros em 2005
João Vieira Pinto recebeu 30 mil contos (150 mil euros) por conta do contrato com o Sporting, no Verão de 93. Na altura, não devolveu a verba aos leões. Apenas o fez em 2005, aquando do acerto de verbas pelo contrato assinado no Verão de 2000 com o clube leonino.

Leões também tentam Rui Costa e Isaías
Abílio Fernandes foi o homem que atacou o ‘ninho da águia’. Garantiu as contratações de Pacheco e Paulo Sousa. Mas quis ir mais longe, como revela ao Correio Sport: "Ainda tentámos Rui Costa e Isaías mas não foi possível."

Sócio do Sporting ‘dorme’ com Paulo Sousa
"Sousa Cintra incumbiu-me de andar sempre com o Paulo Sousa durante o tempo que duraram as conversações. E, na véspera da assinatura do contrato, Cintra pediu-me para ‘dormir’ com o Paulo Sousa, com receio de que ele mudasse de ideias", conta Valdemar de Sousa.

Pacheco contra troca de Robson por Queiroz
"A minha ida para o Sporting foi o princípio do fim da minha carreira. A troca de Bobby Robson por Carlos Queiroz foi nefasta para o grupo. O professor tinha um péssimo relacionamento com os jogadores de quem não gostava", assume António Pacheco.

Cintra e Brito: amigos, amigos, clubes à parte
"Os ataques do Benfica ao Sporting, e vice--versa, não ‘mexeram’ com a amizade que tinha por Jorge de Brito. Fui amigo dele até ao seu falecimento. Afinal, ele defendeu o seu clube e eu apenas tentei defender o meu", disse Sousa Cintra.

Carlos Severino

FICHEIROS SECRETOS DO FUTEBOL PORTUGUÊS/ CORREIO DA MANHÃ - 9 de Julho 2011